Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto…
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente.

Antero de Quental, Na mão de Deus

O último adeus público ao inmortal escritor portugués António Lobo Antunes aconteceu hoxe na igresia dos Jerónimos ao som do hino do Benfica, o seu clube desde criança, e uma leitura do soneto «Na Mão de Deus», de Antero de Quental.

De los muchos pasajes que tengo subrayados de Os cus de Judas, una de las obras maestras de la inconmensurable novelística del genial escritor lisboeta, comparto estos dos breves fragmentos, pertinentes todavía décadas después de su publicación. Moito obrigado, Maestro: A tua lucidez vai Fazer falta.

Não chega a manhã, não vai chegar nunca, é inútil esperar que os telhados empalideçam, que uma lividez gelada aclare tremulamente os estores, que pequenos cachos de criaturas transidas, brutalmente arrancadas ao útero do sono, se agrupem nas paragens do autocarro a caminho de um trabalho sem prazer.

Achamo-nos condenados, você e eu, a uma noite sem fim, espessa, densa, desesperante, desprovida de refúgios e saídas, um labirinto de angústia que o uísque ilumina de viés com a sua claridade turva, segurando os copos vazios na mão como os peregrinos de Fátima as suas velas apagadas.

Sentados lado a lado no sofá, ocos de frases, de sentimentos, de vida, sorrimos um para o outro com caretas de cães de faiança numa prateleira de sala, com os olhos exaustos por semanas e semanas de apavoradas vigílias.

Já reparou como o silêncio das quatro horas instila em nós a mesma espécie de inquietação que habita as árvores antes da chegada do vento, um frémito de folhas de cabelos, uma tremura de troncos de intestinos, a agitação de raízes dos pés que se cruzam e descruzam sem motivo?…

…Viu por acaso como nos assustamos se alguém, genuinamente, sem segundos pensamentos, se nos entrega, como não suportamos um afecto sincero, incondicional, sem exigência de troca? A esses, os Camilos Torres, os Guevaras, os Allendes, apressamo-nos a matá-los porque o seu combativo amor nos incomoda, procuramo-los de bazooka ao ombro raivosos nas florestas da Bolívia, bombardeamos-lhes os palácios, colocamos no seu lugar sujeitos cruéis e viscosos, mais parecidos connosco, cujos bigodes nos não trepam pelo esófago refluxos verdes de remorso.

Os cus de Judas, António Lobo Antunes

No llega la mañana, no va a llegar nunca, es inútil esperar que los tejados palidezcan, que una lividez helada aclare trémulamente los estores, que pequeños racimos de criaturas transidas, brutalmente arrancadas al útero del sueño, se agrupen en las paradas del autobús camino de un trabajo sin placer.

Nos encontramos condenados, usted y yo, a una noche sin fin, espesa, densa, desesperante, desprovista de refugios y salidas, un laberinto de angustia que el whisky ilumina al bies con su claridad turbia, sujetando los vasos vacíos en la mano como los peregrinos de Fátima sus velas apagadas.

Sentados uno al lado del otro en el sofá, huecos de frases, de sentimientos, de vida, nos sonreímos con muecas de perros de porcelana en la repisa de una sala, con los ojos exhaustos por semanas y semanas de aterradoras vigilias.

¿Se ha fijado en cómo el silencio de las cuatro infunde en nosotros la misma especie de inquietud que habita los árboles antes de la llegada del viento, un estremecimiento de hojas de cabellos, un temblor de troncos de intestinos, la agitación de raíces de los pies que se cruzan y descruzan sin motivo?…

…¿Ha visto por casualidad cómo nos asustamos si alguien, genuinamente, sin segundas intenciones, se nos entrega, cómo no soportamos un afecto sincero, incondicional, sin exigir nada a cambio? A ésos, a los Camilo Torres, los Guevara, los Allende, nos apresuramos a matarlos porque su combativo amor nos molesta, los buscamos, con la bazuca al hombro, rabiosos, en las selvas de Bolivia, bombardeamos sus palacios, colocamos en su lugar sujetos crueles y viscosos, más parecidos a nosotros, cuyos bigotes no nos hacen subir por el esófago reflujos verdes de remordimiento.

En el culo del mundo, António Lobo Antunes, traducción de Mario Merlino

Rferdia

Let`s be careful out there