Um livro não é o que está escrito nele, é o que está escrito em ti, um livro é o teu sangue ao longo das páginas. O teu sangue, o teu olhar e o teu gesto, como queria Rilke, tornares-te um pássaro quase mortal da alma, o título que pretendes dar ao que agora escreves e encontraste numa elegia do Duíno, como um grito do poeta enterrado na água. Não como: o grito

(sem como)

do poeta enterrado na água e, com esse grito usado como bengala na mão, caminha ao teu próprio encontro, que é tudo aquilo que poderás achar, ou seja um infinito nada com vozes. Escuta-te. Tropeça na tua sombra e escuta-te porque tens que deixar de escutar-te para poderes ouvir. E então as palavras principiam, uma a uma, a chegar.

Antonio Lobo Antunes, As outras crónicas

Agrafar, carimbar, cortar uma página pelo picotado, fazer buraquinhos numa folha com aquela maquineta de fazer buraquinhos, o palrar de um bebé, calar de súbito o som a meio de uma ária de ópera, esmagar as bolhinhas de uma folha de plástico transparente, ver da janela, lá em baixo, o primeiro pássaro da manhã, olhar o retrato do Papa Inocêncio de Velázquez, meter na boca um pé de criança de três meses, uma finta de Garrincha na televisão, o sorriso súbito de certas mulheres, um sino de aldeia ao fim da tarde, as luzes de Beja à noite na planície, a Serra da Estrela vista da varanda dos meus avós quando eu tinha cinco anos, a minha filha Joana, pequenina, a desenhar a sua primeira árvore, o meu avô a fazer-me uma festa comigo quase a adormecer, o tenente, quando eu era cadete a ordenar a Marcha lento e à vontade, um pirilampo no quintal a meio da noite, a voz da minha mãe a recitar António Nobre, um gato caminhando devagarinho no muro da buganvília, montar uma zebra de pau no carrossel do oito, dizer gosto de ti para um rosto que aumenta, os olhos azuis da Avó Querida quando me chamava meu amor, agrafar mais, carimbar mais, uma mulher a murmurar meu Deus na almofada, o pneu afinal não ter furo nenhum, o médico junto à minha cama Vou dar-lhe alta, um falcão a passar junto à janela, o guardanapo eixo, começar a ver o fundo do prato quando com uma rã a saltar ao me davam sopa, beber água da bilha na casa de Nelas, a campainha do recreio a meio de uma frase do professor de matemática, a vez que dancei de cara vermelha e eu cheio de orgulho e vergonha, a primeira encostada com uma menina de treze anos também, o palhaço que me apertou a mão no circo, a tia Madalena para mim Estou aqui filho comigo com a tuberculose, o raio verde no Caramulo, agrafar mais, carimbar mais, vestir a camisola do Benfica aos quinze anos no primeiro treino, as Variações Goldberg, chegar da mata em Angola, os primeiros passos da minha filha Zezinha, eu a ensinar a Isabel a ler, o meu primo António a explicar-me Se a mãe sêsse o pai puzia gravata, um abraço do meu tio João Maria, o meu pai a deixar-me ganhar-lhe uma corrida, o meu irmão Pedro a contar Já vou no Pardal de regresso de uma aula de catequese sobre o Espírito Santo, o primo Alfredo que me levantava acima da sua cabeça e eu maior do que toda a família, a minha mãe perfumada com Chanel número cinco, a Gija a coçar-me as costas antes de me vestir o pijama, a professora de português, no primeiro ano do liceu, a apontar-me à turma. Este menino vai ser um grande escritor e eu feliz, a primeira vez que li A Ruiva de Fialho de Almeida, o sabor da minha boca depois de um rebuçado de hortelã-pimenta, a cor do mar da Praia das Maçãs às seis da tarde, receber uma carta de Céline quando lhe escrevi aos quinze anos, o dia em que o cifra me veio dizer que tinha uma filha e fui chorar de felicidade e raiva para o arame farpado, os meus pais terem-me encontrado em Veneza aos sete anos junto a um dos leões de pedra na Praça de São Marcos, o meu avô a murmurar Meu netinho, fingir que dormia, beber leite que descobri de manhã na almofada, a esperança de voltar a ler As Aventuras de Dona Redonda e da Sua Gente, a minha pilinha de repente grande e eu cheio de orgulho e vergonha, o tio Joaquim a levar-me até aos Correios, na Beira Alta, no quadro da bicicleta, o palhaço pobre que me deu um passou bem no circo, comer cocada de Belém do Pará feita pela tia Isabel, eu em Paris à procura da cegonha que me tinha trazido dali para Lisboa sete anos antes: ainda não perdi a esperança de a encontrar e de certeza que ela se lembra de mim, acho eu. Ter feito chichi em Nova Iorque ao lado de Mickey Rooney. Cortar, mal acabe isto, todas as páginas do bloco pelo picotado. Acho que devo ter por aí uma dessas coisas de fazer buraquinhos: que mais pode um homem desejar?

António Lobo Antunes, As coisas que mais pracer me deram na vida

Rferdia

Let`s be careful out there